A parede de vidro.

Eu tenho uma maldição.
Nasci como um muro que foi construído com sensações,
Sou inteiramente matéria e minhas moléculas são pequenos sonhos e paixões reunidas,
Essas paixões tinham o formato de parede de concreto,
Então, quanto mais nova,
Mais resistente, mais firme, mais certa.
Até servia de suporte
"Pode encostar, se precisar eu seguro a nós dois."

Aí a vida me implode com uma dinamite.
E destrói meu muro de desejos.
Fica tudo lá, dilacerado pelo chão.
Às vezes vem alguém, junta os pedaços, põe o muro de pé
Mas, as rachaduras estão lá,
A parede nunca volta a ser a mesma de antes.

Os anos passam
Tudo cai
Reconstrói
E cai de novo
E volta 
Já sem força
Vira outra coisa
Uma outra matéria, mais fina e mais fraca.

Hoje em dia sou uma parede de vidro fino, vagabundo e mal remendado.
Sensível demais ao toque.
Sem maldade você só encosta e eu me espalho pelo chão,
Fazendo estardalhaço,
Soltando pedaços cortantes e te deixando uma cicatriz profunda,
Da qual você tem repulsa.

E sabe o que me consola?
É que ao menos você vai ter essa marca sempre lá,
E amaldiçoar a própria pele,
Toda vez que se lembrar de mim.