Terças e quintas.




A vida devia ser tipo "Quero ser John Malkovich".
Seria tão bom se existissem prédios com meio-andares e passagens que nos levassem à outra dimensão de realidade, ao cérebro de outra pessoa. Um buraco de minhoca pra gente ver tudo por outras perspectivas. Porque a vida é o mesmo game de estratégia em primeira pessoa. Uma mesma câmera subjetiva. E isso cansa!

Ou tipo esses filmes idiotas de sessão da tarde com a premissa de troca de corpos: Sexta-feira muito louca, E se eu fosse você, Garota Veneno... Se tem uma coisa que aprendi depois da vida acadêmica e intelectual, depois dos 30, depois de longos relacionamentos e depois de "tentar de de novo" um bilhão de vezes é: O mundo não está errado, eu é que tô cansada de mim mesma.

Acho bem natural entediar-se de si mesma depois de tanto tempo de convivência. Se com outros relacionamentos isso acontece, imagina o peso de se relacionar consigo mesma pro resto da vida?

A mesma voz, a mesma cara, o mesmo corpo, mesmas obrigações...
A mesma coisa de existir todos os dias.
Tem dias que a gente não quer lidar com essa rotina cansativa de existir, de ser quem se é.
Tipo, não tô falando de uma coisa definitiva, como um suicídio.
Existir é quase sempre legal. Quase.
deus, se VOCÊ existir, por favor, na próxima crie um mundo em que a gente tenha a opção de escolher? Pode ser?
Por mim tava tranquilo só existir nas terças e quintas.

10-01-16

Hoje foi o dia que morreu o Bowie.
Hoje também tinha um gato preto morto na entrada do prédio.
Hoje o dia tá quente.
Hoje tem cobranças e contas a pagar.
Hoje o chefe, o trabalho, as pessoas e suas vaidades continuam do jeito que sempre foram.
Hoje tenho que agendar a consulta médica e aguardar minha vez.
Hoje usaria a blusa do Aladdin Sane, mas manchou de água sanitária.

Hoje tá com a mesma cara de ontem, e a mesma do amanhã. Manhã-tarde-noite. Quente, horário, trabalho, estudo, trânsito, obrigação, pendência. Aquela ligação pra fazer. O Networking. Novo emprego pra achar. Novos clientes. Os pratos pra lavar. O programa de exercícios. O babaca do 304 ouvindo Jorge Vercilo. Pra piorar hoje é segunda. Hoje é dia da maldita ressaca.

Hoje tá insuportavelmente igual. Exceto por alguns detalhes.
O gosto ruim na boca, a garganta seca e aquela sensação de que a vida:
A minha, a sua, a do chefe, a do babaca do 304, a do Bowie, a do gato preto, a do Jorge Vercilo...
A tal vida... se resume a essa entediante sucessão de dias iguais ao de hoje.
E tudo isso não faz o menor sentido.

A parede de vidro.

Eu tenho uma maldição.
Nasci como um muro que foi construído com sensações,
Sou inteiramente matéria e minhas moléculas são pequenos sonhos e paixões reunidas,
Essas paixões tinham o formato de parede de concreto,
Então, quanto mais nova,
Mais resistente, mais firme, mais certa.
Até servia de suporte
"Pode encostar, se precisar eu seguro a nós dois."

Aí a vida me implode com uma dinamite.
E destrói meu muro de desejos.
Fica tudo lá, dilacerado pelo chão.
Às vezes vem alguém, junta os pedaços, põe o muro de pé
Mas, as rachaduras estão lá,
A parede nunca volta a ser a mesma de antes.

Os anos passam
Tudo cai
Reconstrói
E cai de novo
E volta 
Já sem força
Vira outra coisa
Uma outra matéria, mais fina e mais fraca.

Hoje em dia sou uma parede de vidro fino, vagabundo e mal remendado.
Sensível demais ao toque.
Sem maldade você só encosta e eu me espalho pelo chão,
Fazendo estardalhaço,
Soltando pedaços cortantes e te deixando uma cicatriz profunda,
Da qual você tem repulsa.

E sabe o que me consola?
É que ao menos você vai ter essa marca sempre lá,
E amaldiçoar a própria pele,
Toda vez que se lembrar de mim.

Velha Infância.


Quando eu era criança eu morava em um conjunto habitacional gigante, desses tipo Cohab, que davam a sensação de claustrofobia, mas que por possuir grandes áreas abertas também davam a sensação de liberdade, talvez a última geração que brincava despreocupadamente na rua. 

O conjunto era tão grande que parecia um micro bairro dentro do meu bairro, ou uma cidade pequena dentro de uma grande metrópole. Um mundo bem particular em que as áreas livres eram do tamanho do universo, mas dentro de casa era claustrofóbico como qualquer apartamento classe-média baixa deveria ser. E como qualquer micro cidade todo mundo sabia da vida de todo mundo, tinha os personagens ilustres e histórias de gente "esquisita".

Tinha o homem que morava só, na última quadra, no último andar, que gostava de meninos. No começo ele gostava de homens, depois ouvi a história de que ele gostava de meninos, mas isso é algo que nunca vou saber com certeza. Se ele passasse na rua, a gente tinha que se esconder e os garotos do prédio diziam que cruzar com ele na mesma calçada dava azar, muito mais azar do que cruzar com gato preto ou passar por baixo das escadas. Se você o visse andando do outro lado da rua tinha que "passar" a maldição dando um tapa no colega ao lado e cruzando os dedos, então quem levou o tapa tinha que passar pro colega seguinte e cruzar os dedos também. Cruzar os dedos era a cura de todos os males, de todos os cânceres e até mesmo da doença da homossexualidade, segundo a nossa sábia e incontestável mitologia infantil.

Também tinha o militar calmo e tranquilo, pai de dois filhos, que morava no prédio antes do meu, também no último andar, que segundo a vizinhança sempre foi maluco e disfarçava muito bem. Disfarçava tão bem, que só descobriram a loucura quando numa noite de domingo ele deu um tiro na boca sentado na privada. Eram pessoas e mais pessoas aglomeradas na frente do prédio e luzes e sirenes... Quando ouvi a história e vi a multidão, senti como se tivessem colocado uma bolsa de gelo no meu estômago ou como se tivesse passado cinco horas seguidas brincando de "elástico" de tanto que minhas pernas tremiam. O horror tem essa sensação de topor misturada à excitação da curiosidade segura... Porque não era comigo, não era com minha família, nem na minha casa. Estava livre pra pensar "ele era maluco e eu nem sabia. Mas, agora não é mais".

Mas a minha esquisita favorita era a moça que morava na terceira quadra, duas depois da minha. Ela era velha... Ou não era? Talvez tivesse minha idade atual e eu julgava velha porque ela tinha o corpo gordo e cheio de carne, que na época eu associava à velhice. Ela gostava de ficar nua, na janela da varanda do último andar. Sim, mais uma vez do último andar... Disseram que ela provavelmente tinha alguma doença mental. Todos os meninos (e meninas molecas que andavam com eles, tipo eu, que já tinha até levado surra por gostar de brincar com meninos, mas que mesmo assim insistia na amizade) passavam gritando, anunciando que a moça doidona mais uma vez estava se exibindo. 

Uma plateia de crianças, adolescentes, adultos e velhos se formava na frente da janela. Todos gritavam, achincalhavam, chamavam de gostosa, enquanto ela subia nas grades e rebolava, nua em pelo, extasiada pela pela multidão, desvairada, numa felicidade inebriante...
Isso podia durar longos minutos, até que aparecia alguém que a puxava pra dentro e gritava pra todo mundo ir embora. Ela fez isso umas três vezes, até desaparecer pra sempre da varanda e das nossas vidas.

Os primeiros lampejos do que é a sociedade, rasgando a película da nossa infância, maculando a existência egoísta e inocente dos nossos primeiros anos, a gente nunca esquece, né?

Hoje eu sei porque essa última esquisita era minha favorita.
Ela era livre.
E vendo o mundo como vejo hoje, talvez ela estivesse mais sã do que nunca.

Ontem eu sonhei com uma multidão. Pessoas que nunca vi.
Pedaços de rostos desconhecidos, sorrisos, cabelos, olhos, vozes...  Sim, eles tinham vozes!
Roupas claras, alguns com roupas escuras, sapatos sujos, risadas esganiçadas, mãos ocupadas, detalhes... Tantos detalhes.

Depois acordei.
Essas pessoas não existiam.
Pra que mundo vão as pessoas que habitam nossos sonhos, quando sonho não há mais?

E se tudo isso for o sonho de alguém segundos antes de despertar?

Dupla Personalidade.

- Alô, senhora Lucióóóóla, por favor?
- Bom dia, sou eu, mas o nome é Lucíola, com acento no í.
- Não entendi, é Fabíola?
- Não. Lucíola.
- Como?
- Lucíola: éle, u, cê, i - acento agudo no i - o - ele - a.... igual a do livro... do José de Alencar...
- Aaahh, tá. Lucíola. Agora entendi. Nossa... er... "meio diferente" né?
- Não sei... deve ser... Já escuto esse nome há tanto tempo que pra mim ele é a coisa mais comum que existe.
- Mas é diferente, nunca conheci nenhuma Lucíola, nunca ouvi falar.
- Olha... faz o seguinte... Me chama de "Luci" que fica mais fácil, até mais amigável.
- Ah, ótimo, então tá.

E tem sido assim. Desde sempre. Duas pessoas diferentes e dois nomes numa só.