A giárdia da curiosidade.

Tenho uma satisfação inexorável por coisas, pessoas e sensações que me atiçam a curiosidade.
É inebriante. Renovador.
Como num livro em que cada página te preenche com um mundo novo a ser explorado.

Ela mata essa eterna sensação de marasmo que é tentar existir todos os dias dentro da mesma pele, Morar anos e anos na mesma rua.
Curiosidade é o antônimo do tédio. Curiosidade é o que move o mundo, o que desperta paixões, transforma amizades, revela segredos, promove descobertas.
Sem curiosidade não existiria ciência, não existiria filosofia.
Quando sinto falta da infância, é exatamente a menina curiosa quem me provoca a nostalgia
Saudades da criança cheia de perguntas com um munto inteiro a ser desvendado.

Aliás, nesse nosso mundo atual tão cheio de redes e câmeras, virou uma espécie de qualidade não ter nenhum interesse pelos outros.
"Eu apenas cuido da minha vida" você fala com ares de superioridade.
Sim, eu cuido da minha vida, e cuido da sua também. Porque preciso dela, me alimento dela.
Vasculho cada detalhe, observo cada reação, comentário, rede, postagem, filmes, hábitos...
Tal qual o caçador observando a presa, ou o pesquisador diante de um experimento.
Mais ainda
Tal qual o verme que existe sugando a essência do outro ser vivo.
e quanto mais curiosidade me despertam, mais parasita me torno de realidades alheias.

Stalkeio por puro prazer de explorar o desconhecido.
Cada um é um universo particular, um oceano de manias, fantasias, futilidades, neuroses, repulsas e segredos.
Navegar essas águas escuras me dá um prazer indescritível.

Mas, sim, alguns universos são mais interessantes que os outros. É verdade
Os que me dão a sensação de déjà-vu pouco me interessam. Prefiro me deter naquilo que nunca vi (algo cada vez mais raro).
Quando encontro um que me desperta curiosidade genuína eu aporto, acampo, faço morada, me alimento, tento prever cada mudança, cada mínima reação à minha súbita chegada.

Mas, não, por favor, não se sinta invadido.
a riqueza de seu mundo interno renova minha curiosidade. Minha dádiva.
E é ela quem mantém a minha sanidade depois de tantos anos de sobrevivência na minha mente tediosa e solitária.
E por isso, honestamente, meu muitíssimo obrigada.

Sob a pele.

O sol torra e me dói a retina, um calor limítrofe entre desconforto e o prazer.
Fecho os olhos e sinto os raios queimando minha pele exposta, vermelha, brozeada, quente.
A água morna da piscina me acolhe enquanto eu flutuo de barriga pra cima.
É como uma carícia suave, nos braços, nas costas, entre as coxas.

Não escuto vozes, só a minha respiração pausada.
Não vejo nada, são só as sensações, a água penetrando nos poros, entrando nos ouvidos, me preenchendo.
Nenhuma densidade, nenhum peso de realidade, só a sensação de estar bem viva, sentindo por cada milímetro de pele enquanto a leveza me faz flutuar.

Amo flutuar, me sinto presente, me sinto ausente.
Me sinto morta para o mundo, mas viva para minha consciência, como uma alma.

Parece contraditório, mas sempre associo a sensação de estar viva com a fluidez dos espíritos.
Espíritos não combinam com a vida após a morte (vida?)
Flutuando na água me sinto um espírito vivo.
Não sou mais a mulher que estuda, trabalha, acorda às sete, preenche formulários, prepara aulas, dá palestras, defende causas, atende ligações e toma remédio pra gastrite.

Sou só um ser pulsante, lânguido, macio, que ninguém vê, mas que está em todas as partes.
Ser espírito é estar vivo e sublime.

De repente o sol se esconde, e uma brisa fria do alto da serra deixa a água desconfortável.
Um calafrio desce a espinha.
Quero ser espírito pra sempre, mas espíritos são mortais. E eu bem sei disso.
No lugar do preenchimento, virá o vazio.
Quando a fluidez quente se transformar em rigidez gélida, existirá uma carne podre no lugar dessa pele suave.
Meus dentes brancos ficarão podres
Tudo apodrece.
Vermes no escuro criarão túneis num crânio exposto que antes constituía minha face harmônica...

Sem dor.
Sem prazer.
Sem sensações.
Sem alma.
Mais nada.

Me ponho de pé na piscina dou um mergulho profundo pra espantar o pensamento hostil.

Sei que é desagradável a visão que proporcionei agora, também detesto o assunto.
Mas, pelo menos é uma maneira sensata de enxergar as coisas.
Quando vem o horror, melhor do que sair fantasiando com mitologias, prefiro dar um mergulho de cabeça pra depois boiar inerte, pra esquecer por um momento o que é sobreviver cotidianamente.
Fecho os olhos, inspiro, me jogo e tento flutuar...
Assim me transformo um espírito vivo, preenchido de sensações.
Faço isso sempre.
Enquanto puder.