Solitude is a bliss






Hoje foi um daqueles dias que chamo de "não-hoje".
Nostalgia sorrateira instalando-se na minha cabeça... Estava lembrando de alguns anos atrás, quando eu acreditava cegamente naquela frase que dizia que: "Se há algum tipo de mágica nesse mundo, ela está na tentativa de compreender e compartilhar algo (de valor) com alguém". Essa era a minha meta, minha maior fantasia. 

   Quando somos mais jovens, encontramos algumas pessoas e fazemos conexões. Tudo é novo e diferente, e por algum motivo, a gente acha que aquilo vai durar ou que vai acontecer outras vezes... Mas, não, não acontece... Somos anestesiados pela vida moderna, pelos delírios do consumo, pela futilidade, pela necessidade de mais e mais contatos por interesse, mais e mais dinheiro, mais e mais status... A impressão que tenho daquelas pessoas que me encantaram há tempos atrás, que compartilharam os tesouros das suas personalidades comigo, é que elas criaram uma espécie de prisão interna e lá trancafiaram suas ideias sobre sonhos, juventude, honestidade, e sobretudo sua sensibilidade... Sobrou uma superfície, uma casca vazia, quase que como robôs mesmo. Quando vou a reuniões de amigos, é isso que vejo: Robôs por todos os lados, com gravações repetindo as mesmas conversas: "O melhor carro é tal, o melhor bebida é tal, a melhor festa foi tal" ou "Você viu que fulana se separou? Você viu que eu consegui uma promoção no trabalho?". São robôs especialistas em inflar o próprio ego, e que usam como combustível a própria vaidade ou fracasso alheio.

    Isso é ser adulto, né? Isso é a vida. Pois bem, trinta anos e ainda não aprendi a viver... continuo procurando a "magia" em outras pessoas. Mas ela não existe mais nos outros. Não temos mais idade pra acreditar em ilusões, nem temos mais tempo pela frente para viver de sonhos. São metas, sempre as metas: Carro, casa própria, emprego fixo, roupas caras, restaurantes, plano de previdência... Essa obsessão tomou conta de todas as pessoas que conheci e que, por ventura, possa vir a conhecer. É a ordem cruel e natural das coisas. Toda vez que, sem querer, deixo escapar da prisão alguns assuntos sobre coisas intangíveis (vida, sonhos, paixão, amor, solidão...) os robôs manifestam estranhamento. Dai, sou obrigada a trancar tudo isso lá dentro de novo e fingir que sou um deles.


   Mas tem um momento, quando me vejo só, que as coisas intangíveis se libertam e ficam pairando no ar, dançando diante dos meu olhos... como se o amor fosse real, como se os sonhos fossem possíveis, como se o espírito apaixonado da juventude estivesse sempre ali, mesmo com o passar dos anos, mesmo na rotina massante dos casamentos, mesmo na velhice... Como se alguém imaginário me apresentasse um mundo cheio de novidades. Daí eu me dou conta que esse alguém imaginário sou eu mesma, na minha solidão... É tão bom. Fantasiar chega a ser algo viciante. E é mesmo... E é daí que surge o problema: A solidão, que antes era minha inimiga, se tornou meu passatempo favorito... Pensando bem, sempre foi, afinal não era eu mesma, sozinha no meu canto como toda filha única,  que tinha essa mania de criar castelos imaginários durante a minha infância?
  
   Se isso é saudável eu não sei. Se é uma fuga, francamente, já não me preocupo. Agora tanto faz... É reconfortante, depois de todos esses anos, saber que eu tenho (sempre tive) a mim mesma, em quem posso confiar e fechar o olhos. Quem sempre vai tentar mudar e me surpreender de alguma forma. Quem nunca vai me julgar por não dar a mínima pra status social. 
Não preciso de mais ninguém dentro do meu apartamento, no meu universo, junto com as minhas fantasias.
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Foto: Jack Riveira (shesjack.com)