Velha Infância.


Quando eu era criança eu morava em um conjunto habitacional gigante, desses tipo Cohab, que davam a sensação de claustrofobia, mas que por possuir grandes áreas abertas também davam a sensação de liberdade, talvez a última geração que brincava despreocupadamente na rua. 

O conjunto era tão grande que parecia um micro bairro dentro do meu bairro, ou uma cidade pequena dentro de uma grande metrópole. Um mundo bem particular em que as áreas livres eram do tamanho do universo, mas dentro de casa era claustrofóbico como qualquer apartamento classe-média baixa deveria ser. E como qualquer micro cidade todo mundo sabia da vida de todo mundo, tinha os personagens ilustres e histórias de gente "esquisita".

Tinha o homem que morava só, na última quadra, no último andar, que gostava de meninos. No começo ele gostava de homens, depois ouvi a história de que ele gostava de meninos, mas isso é algo que nunca vou saber com certeza. Se ele passasse na rua, a gente tinha que se esconder e os garotos do prédio diziam que cruzar com ele na mesma calçada dava azar, muito mais azar do que cruzar com gato preto ou passar por baixo das escadas. Se você o visse andando do outro lado da rua tinha que "passar" a maldição dando um tapa no colega ao lado e cruzando os dedos, então quem levou o tapa tinha que passar pro colega seguinte e cruzar os dedos também. Cruzar os dedos era a cura de todos os males, de todos os cânceres e até mesmo da doença da homossexualidade, segundo a nossa sábia e incontestável mitologia infantil.

Também tinha o militar calmo e tranquilo, pai de dois filhos, que morava no prédio antes do meu, também no último andar, que segundo a vizinhança sempre foi maluco e disfarçava muito bem. Disfarçava tão bem, que só descobriram a loucura quando numa noite de domingo ele deu um tiro na boca sentado na privada. Eram pessoas e mais pessoas aglomeradas na frente do prédio e luzes e sirenes... Quando ouvi a história e vi a multidão, senti como se tivessem colocado uma bolsa de gelo no meu estômago ou como se tivesse passado cinco horas seguidas brincando de "elástico" de tanto que minhas pernas tremiam. O horror tem essa sensação de topor misturada à excitação da curiosidade segura... Porque não era comigo, não era com minha família, nem na minha casa. Estava livre pra pensar "ele era maluco e eu nem sabia. Mas, agora não é mais".

Mas a minha esquisita favorita era a moça que morava na terceira quadra, duas depois da minha. Ela era velha... Ou não era? Talvez tivesse minha idade atual e eu julgava velha porque ela tinha o corpo gordo e cheio de carne, que na época eu associava à velhice. Ela gostava de ficar nua, na janela da varanda do último andar. Sim, mais uma vez do último andar... Disseram que ela provavelmente tinha alguma doença mental. Todos os meninos (e meninas molecas que andavam com eles, tipo eu, que já tinha até levado surra por gostar de brincar com meninos, mas que mesmo assim insistia na amizade) passavam gritando, anunciando que a moça doidona mais uma vez estava se exibindo. 

Uma plateia de crianças, adolescentes, adultos e velhos se formava na frente da janela. Todos gritavam, achincalhavam, chamavam de gostosa, enquanto ela subia nas grades e rebolava, nua em pelo, extasiada pela pela multidão, desvairada, numa felicidade inebriante...
Isso podia durar longos minutos, até que aparecia alguém que a puxava pra dentro e gritava pra todo mundo ir embora. Ela fez isso umas três vezes, até desaparecer pra sempre da varanda e das nossas vidas.

Os primeiros lampejos do que é a sociedade, rasgando a película da nossa infância, maculando a existência egoísta e inocente dos nossos primeiros anos, a gente nunca esquece, né?

Hoje eu sei porque essa última esquisita era minha favorita.
Ela era livre.
E vendo o mundo como vejo hoje, talvez ela estivesse mais sã do que nunca.