Sob a pele.

O sol torra e me dói a retina, um calor limítrofe entre desconforto e o prazer.
Fecho os olhos e sinto os raios queimando minha pele exposta, vermelha, brozeada, quente.
A água morna da piscina me acolhe enquanto eu flutuo de barriga pra cima.
É como uma carícia suave, nos braços, nas costas, entre as coxas.

Não escuto vozes, só a minha respiração pausada.
Não vejo nada, são só as sensações, a água penetrando nos poros, entrando nos ouvidos, me preenchendo.
Nenhuma densidade, nenhum peso de realidade, só a sensação de estar bem viva, sentindo por cada milímetro de pele enquanto a leveza me faz flutuar.

Amo flutuar, me sinto presente, me sinto ausente.
Me sinto morta para o mundo, mas viva para minha consciência, como uma alma.

Parece contraditório, mas sempre associo a sensação de estar viva com a fluidez dos espíritos.
Espíritos não combinam com a vida após a morte (vida?)
Flutuando na água me sinto um espírito vivo.
Não sou mais a mulher que estuda, trabalha, acorda às sete, preenche formulários, prepara aulas, dá palestras, defende causas, atende ligações e toma remédio pra gastrite.

Sou só um ser pulsante, lânguido, macio, que ninguém vê, mas que está em todas as partes.
Ser espírito é estar vivo e sublime.

De repente o sol se esconde, e uma brisa fria do alto da serra deixa a água desconfortável.
Um calafrio desce a espinha.
Quero ser espírito pra sempre, mas espíritos são mortais. E eu bem sei disso.
No lugar do preenchimento, virá o vazio.
Quando a fluidez quente se transformar em rigidez gélida, existirá uma carne podre no lugar dessa pele suave.
Meus dentes brancos ficarão podres
Tudo apodrece.
Vermes no escuro criarão túneis num crânio exposto que antes constituía minha face harmônica...

Sem dor.
Sem prazer.
Sem sensações.
Sem alma.
Mais nada.

Me ponho de pé na piscina dou um mergulho profundo pra espantar o pensamento hostil.

Sei que é desagradável a visão que proporcionei agora, também detesto o assunto.
Mas, pelo menos é uma maneira sensata de enxergar as coisas.
Quando vem o horror, melhor do que sair fantasiando com mitologias, prefiro dar um mergulho de cabeça pra depois boiar inerte, pra esquecer por um momento o que é sobreviver cotidianamente.
Fecho os olhos, inspiro, me jogo e tento flutuar...
Assim me transformo um espírito vivo, preenchido de sensações.
Faço isso sempre.
Enquanto puder.

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