A parede de vidro.

Eu tenho uma maldição.
Nasci como um muro que foi construído com sensações,
Sou inteiramente matéria e minhas moléculas são pequenos sonhos e paixões reunidas,
Essas paixões tinham o formato de parede de concreto,
Então, quanto mais nova,
Mais resistente, mais firme, mais certa.
Até servia de suporte
"Pode encostar, se precisar eu seguro a nós dois."

Aí a vida me implode com uma dinamite.
E destrói meu muro de desejos.
Fica tudo lá, dilacerado pelo chão.
Às vezes vem alguém, junta os pedaços, põe o muro de pé
Mas, as rachaduras estão lá,
A parede nunca volta a ser a mesma de antes.

Os anos passam
Tudo cai
Reconstrói
E cai de novo
E volta 
Já sem força
Vira outra coisa
Uma outra matéria, mais fina e mais fraca.

Hoje em dia sou uma parede de vidro fino, vagabundo e mal remendado.
Sensível demais ao toque.
Sem maldade você só encosta e eu me espalho pelo chão,
Fazendo estardalhaço,
Soltando pedaços cortantes e te deixando uma cicatriz profunda,
Da qual você tem repulsa.

E sabe o que me consola?
É que ao menos você vai ter essa marca sempre lá,
E amaldiçoar a própria pele,
Toda vez que se lembrar de mim.

Velha Infância.


Quando eu era criança eu morava em um conjunto habitacional gigante, desses tipo Cohab, que davam a sensação de claustrofobia, mas que por possuir grandes áreas abertas também davam a sensação de liberdade, talvez a última geração que brincava despreocupadamente na rua. 

O conjunto era tão grande que parecia um micro bairro dentro do meu bairro, ou uma cidade pequena dentro de uma grande metrópole. Um mundo bem particular em que as áreas livres eram do tamanho do universo, mas dentro de casa era claustrofóbico como qualquer apartamento classe-média baixa deveria ser. E como qualquer micro cidade todo mundo sabia da vida de todo mundo, tinha os personagens ilustres e histórias de gente "esquisita".

Tinha o homem que morava só, na última quadra, no último andar, que gostava de meninos. No começo ele gostava de homens, depois ouvi a história de que ele gostava de meninos, mas isso é algo que nunca vou saber com certeza. Se ele passasse na rua, a gente tinha que se esconder e os garotos do prédio diziam que cruzar com ele na mesma calçada dava azar, muito mais azar do que cruzar com gato preto ou passar por baixo das escadas. Se você o visse andando do outro lado da rua tinha que "passar" a maldição dando um tapa no colega ao lado e cruzando os dedos, então quem levou o tapa tinha que passar pro colega seguinte e cruzar os dedos também. Cruzar os dedos era a cura de todos os males, de todos os cânceres e até mesmo da doença da homossexualidade, segundo a nossa sábia e incontestável mitologia infantil.

Também tinha o militar calmo e tranquilo, pai de dois filhos, que morava no prédio antes do meu, também no último andar, que segundo a vizinhança sempre foi maluco e disfarçava muito bem. Disfarçava tão bem, que só descobriram a loucura quando numa noite de domingo ele deu um tiro na boca sentado na privada. Eram pessoas e mais pessoas aglomeradas na frente do prédio e luzes e sirenes... Quando ouvi a história e vi a multidão, senti como se tivessem colocado uma bolsa de gelo no meu estômago ou como se tivesse passado cinco horas seguidas brincando de "elástico" de tanto que minhas pernas tremiam. O horror tem essa sensação de topor misturada à excitação da curiosidade segura... Porque não era comigo, não era com minha família, nem na minha casa. Estava livre pra pensar "ele era maluco e eu nem sabia. Mas, agora não é mais".

Mas a minha esquisita favorita era a moça que morava na terceira quadra, duas depois da minha. Ela era velha... Ou não era? Talvez tivesse minha idade atual e eu julgava velha porque ela tinha o corpo gordo e cheio de carne, que na época eu associava à velhice. Ela gostava de ficar nua, na janela da varanda do último andar. Sim, mais uma vez do último andar... Disseram que ela provavelmente tinha alguma doença mental. Todos os meninos (e meninas molecas que andavam com eles, tipo eu, que já tinha até levado surra por gostar de brincar com meninos, mas que mesmo assim insistia na amizade) passavam gritando, anunciando que a moça doidona mais uma vez estava se exibindo. 

Uma plateia de crianças, adolescentes, adultos e velhos se formava na frente da janela. Todos gritavam, achincalhavam, chamavam de gostosa, enquanto ela subia nas grades e rebolava, nua em pelo, extasiada pela pela multidão, desvairada, numa felicidade inebriante...
Isso podia durar longos minutos, até que aparecia alguém que a puxava pra dentro e gritava pra todo mundo ir embora. Ela fez isso umas três vezes, até desaparecer pra sempre da varanda e das nossas vidas.

Os primeiros lampejos do que é a sociedade, rasgando a película da nossa infância, maculando a existência egoísta e inocente dos nossos primeiros anos, a gente nunca esquece, né?

Hoje eu sei porque essa última esquisita era minha favorita.
Ela era livre.
E vendo o mundo como vejo hoje, talvez ela estivesse mais sã do que nunca.

Ontem eu sonhei com uma multidão. Pessoas que nunca vi.
Pedaços de rostos desconhecidos, sorrisos, cabelos, olhos, vozes...  Sim, eles tinham vozes!
Roupas claras, alguns com roupas escuras, sapatos sujos, risadas esganiçadas, mãos ocupadas, detalhes... Tantos detalhes.

Depois acordei.
Essas pessoas não existiam.
Pra que mundo vão as pessoas que habitam nossos sonhos, quando sonho não há mais?

E se tudo isso for o sonho de alguém segundos antes de despertar?

Dupla Personalidade.

- Alô, senhora Lucióóóóla, por favor?
- Bom dia, sou eu, mas o nome é Lucíola, com acento no í.
- Não entendi, é Fabíola?
- Não. Lucíola.
- Como?
- Lucíola: éle, u, cê, i - acento agudo no i - o - ele - a.... igual a do livro... do José de Alencar...
- Aaahh, tá. Lucíola. Agora entendi. Nossa... er... "meio diferente" né?
- Não sei... deve ser... Já escuto esse nome há tanto tempo que pra mim ele é a coisa mais comum que existe.
- Mas é diferente, nunca conheci nenhuma Lucíola, nunca ouvi falar.
- Olha... faz o seguinte... Me chama de "Luci" que fica mais fácil, até mais amigável.
- Ah, ótimo, então tá.

E tem sido assim. Desde sempre. Duas pessoas diferentes e dois nomes numa só.
Mais nova forma de neurose: Tentar lembrar qual comentário infeliz foi proferido pra ter me deixado com a sensação de mal-estar o dia todo.
Porque a gastrite sempre vem de algum lugar, mesmo que meu cérebro esqueça, meu estômago parece ter memória fotográfica. 

A giárdia da curiosidade.

Tenho uma satisfação inexorável por coisas, pessoas e sensações que me atiçam a curiosidade.
É inebriante. Renovador.
Como num livro em que cada página te preenche com um mundo novo a ser explorado.

Ela mata essa eterna sensação de marasmo que é tentar existir todos os dias dentro da mesma pele, Morar anos e anos na mesma rua.
Curiosidade é o antônimo do tédio. Curiosidade é o que move o mundo, o que desperta paixões, transforma amizades, revela segredos, promove descobertas.
Sem curiosidade não existiria ciência, não existiria filosofia.
Quando sinto falta da infância, é exatamente a menina curiosa quem me provoca a nostalgia
Saudades da criança cheia de perguntas com um munto inteiro a ser desvendado.

Aliás, nesse nosso mundo atual tão cheio de redes e câmeras, virou uma espécie de qualidade não ter nenhum interesse pelos outros.
"Eu apenas cuido da minha vida" você fala com ares de superioridade.
Sim, eu cuido da minha vida, e cuido da sua também. Porque preciso dela, me alimento dela.
Vasculho cada detalhe, observo cada reação, comentário, rede, postagem, filmes, hábitos...
Tal qual o caçador observando a presa, ou o pesquisador diante de um experimento.
Mais ainda
Tal qual o verme que existe sugando a essência do outro ser vivo.
e quanto mais curiosidade me despertam, mais parasita me torno de realidades alheias.

Stalkeio por puro prazer de explorar o desconhecido.
Cada um é um universo particular, um oceano de manias, fantasias, futilidades, neuroses, repulsas e segredos.
Navegar essas águas escuras me dá um prazer indescritível.

Mas, sim, alguns universos são mais interessantes que os outros. É verdade
Os que me dão a sensação de déjà-vu pouco me interessam. Prefiro me deter naquilo que nunca vi (algo cada vez mais raro).
Quando encontro um que me desperta curiosidade genuína eu aporto, acampo, faço morada, me alimento, tento prever cada mudança, cada mínima reação à minha súbita chegada.

Mas, não, por favor, não se sinta invadido.
a riqueza de seu mundo interno renova minha curiosidade. Minha dádiva.
E é ela quem mantém a minha sanidade depois de tantos anos de sobrevivência na minha mente tediosa e solitária.
E por isso, honestamente, meu muitíssimo obrigada.

Sob a pele.

O sol torra e me dói a retina, um calor limítrofe entre desconforto e o prazer.
Fecho os olhos e sinto os raios queimando minha pele exposta, vermelha, brozeada, quente.
A água morna da piscina me acolhe enquanto eu flutuo de barriga pra cima.
É como uma carícia suave, nos braços, nas costas, entre as coxas.

Não escuto vozes, só a minha respiração pausada.
Não vejo nada, são só as sensações, a água penetrando nos poros, entrando nos ouvidos, me preenchendo.
Nenhuma densidade, nenhum peso de realidade, só a sensação de estar bem viva, sentindo por cada milímetro de pele enquanto a leveza me faz flutuar.

Amo flutuar, me sinto presente, me sinto ausente.
Me sinto morta para o mundo, mas viva para minha consciência, como uma alma.

Parece contraditório, mas sempre associo a sensação de estar viva com a fluidez dos espíritos.
Espíritos não combinam com a vida após a morte (vida?)
Flutuando na água me sinto um espírito vivo.
Não sou mais a mulher que estuda, trabalha, acorda às sete, preenche formulários, prepara aulas, dá palestras, defende causas, atende ligações e toma remédio pra gastrite.

Sou só um ser pulsante, lânguido, macio, que ninguém vê, mas que está em todas as partes.
Ser espírito é estar vivo e sublime.

De repente o sol se esconde, e uma brisa fria do alto da serra deixa a água desconfortável.
Um calafrio desce a espinha.
Quero ser espírito pra sempre, mas espíritos são mortais. E eu bem sei disso.
No lugar do preenchimento, virá o vazio.
Quando a fluidez quente se transformar em rigidez gélida, existirá uma carne podre no lugar dessa pele suave.
Meus dentes brancos ficarão podres
Tudo apodrece.
Vermes no escuro criarão túneis num crânio exposto que antes constituía minha face harmônica...

Sem dor.
Sem prazer.
Sem sensações.
Sem alma.
Mais nada.

Me ponho de pé na piscina dou um mergulho profundo pra espantar o pensamento hostil.

Sei que é desagradável a visão que proporcionei agora, também detesto o assunto.
Mas, pelo menos é uma maneira sensata de enxergar as coisas.
Quando vem o horror, melhor do que sair fantasiando com mitologias, prefiro dar um mergulho de cabeça pra depois boiar inerte, pra esquecer por um momento o que é sobreviver cotidianamente.
Fecho os olhos, inspiro, me jogo e tento flutuar...
Assim me transformo um espírito vivo, preenchido de sensações.
Faço isso sempre.
Enquanto puder.