O filme Junkie do Lars Von Trier



Ok, fui assistir Ninfomaníaca com um pé atrás. Sabe como é... Muito hype, muita gente aguardando um filme pornô pra elite, muita gente indo só pelo oba oba, e muita gente já malhando o pau porque desde que Lars Von Trier falou aquelas baboseira e se tornou pernona non grata em Cannes, o suposto diretor antisemita foi ironicamente "pego pra Cristo"... Enfim, tudo isso me fez esperar um pouco.

Alem disso, filmes do Lars se tornam "sensações" pra mim. sejam elas ruins, catárticas e sem sentido (O Anticristo) como também podem ser inesquecíveis, terapêuticas e com uma certa dose de obscura identificação (Dançando no Escuro, Dogville, Melancolia...). Pensava que este seria um desses filmes que tentam chocar pelo sexo explícito (ou seja, sensação de tédio)... Mas, me enganei. Completamente.  

Ninfomaníaca não é um filme de sexo e esse é seu grande trunfo. Essa foi a grande sacada de Lars, ao meu ver, porque antes da estreia o filme foi vendido como longo, exagerado, explícito, absurdamente provocador... e não, não é nada disso.Claro, tem excessos de penis e vaginas, nus frontais e etc... Mas, se o expectador tiver a mente um pouco mais despida dos estereótipos sociais, vai enxergar na Joe (personagem da Charlotte Gainsbourg) uma junkie com um enorme vazio a ser preenchido, como qualquer outro viciado ou compulsivo. Seja ele em drogas, comida, bebida, consumo... Pessoas são compulsivas porque são solitárias, porque estão deprimidas, porque querem sentir alguma coisa. Pelo menos, nessa primeira parte, é disso que o filme trata. De um grande vazio existencial. Tema - aliás - sempre constante nos filmes do Lars Von Trier, sobretudo no último, o Melancolia. Muda-se o pano de fundo, mas as essências das histórias do Lars são sempre as mesmas: hipocrisia, solidão e a completa falta de sentido na vida.

É simplesmente encantador assistir um filme que lida com assuntos profundos de forma original, que aborda a questão da busca por sensações, da carência, da moralidade, dos relacionamentos, do amor (ou da ausência dele) e da morte de maneira aberta e com pitadas de referências nerds e artísticas. E ainda por cima, sabendo dosar cenas de humor e drama com genialidade. Não se sabe se é um filme erótico, ou de drama, ou mesmo de comédia. (Tragicômico, talvez?) difícil rotular. Uma surpresa muito agradável. um relato honesto. Sem censuras.  

E é essa forma sincera e humana com que a história é conduzida que é a grande provocação no final das contas, porque mexe com a hipocrisia de muita gente, mexe com sentimentos que, no fundo, as pessoas querem manter escondidos, tais quais suas suas partes mais íntimas, e é justamente isso que diretor faz questão de jogar na tela pra o mundo ver. Tem coisa melhor? Mal posso esperar pela parte dois!

2 comentários:

Edmar Teixeira Souza disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Edmar Teixeira Souza disse...

Ótima crítica!

As pessoas tem que se livrar mais dos estereótipos e arquétipos, que foram impostos e atribuídos a titio Lars.

Ele é um dos melhores cineastas desse nosso imenso mundo contemporâneo e pós-moderno.

Ele faz filmes bem humanos, assim como Michael Haneke, que nos coloca em situações que nos faz refletir, e em algumas situações, nossa vida pode parecer com a das que estamos vendo na telona.

E pro pessoal pensar, tem que ter um "choque" mesmo e acho que ele faz isso muito bem.

Quando assisti-lo, comento mais.

Enquanto isso, vá abrindo mais espaço no seu blog pras películas, porque suas críticas são muito, muito boas.

Até a próxima.