O dedal vs a aliança.

 



Trinta anos e mais um pouquinho.
Sabe como é, aquela idade em que todas as moças estão cumprindo o mandamento do "Crescei e multiplicai".
Basta uma visita rápida no Facebook para constatar que a esmagadora maioria das postagens das amigas é:
"Chá de bebê"
"Chá de panela"
"Fotos do casamento da prima"
"Fotos da aliança de noivado com hashtag #casaldoano #casóriomá+leo #noiva2015"
"Fotos do ensaio dos noivos, plaquinha pro Instagram"
"Fotos como madrinha do casamento da amiga da prima da instrutora da aula de pilates"
e por aí vai...

Como num passe de mágica, todas as amigas da mesma faixa etária entraram na febre do casamento-espetáculo, daquele evento programando (pasmem) DOIS anos antes, cujos detalhes são milimetricamente planejados, incluindo a dieta de emagrecimento doentio da noiva e passando pela decoração, escolha dos doces, salgados, buffet, bebidas, vestidos de daminhas, roupas de pajem, alianças, vestido da noiva, terno do noivo, bolo, igreja, padre, recepção, cabelo, maquiagem, fotografo, filmagem, convites, gastos, gastos, gastos... que ultrapassam até o valor que a gente pode dar de entrada num apartamento ou que equivalem ao orçamento de uma produção cinematográfica de pequeno porte.

E eu aqui, com meu cup nodles de mil calorias, diante do meu notebook em estagio terminal  e da pilha de contas na mesinha de canto, me pergunto: Gente, qual é a NECESSIDADE disso?

Na boa, Já fui taxada de anti-casamento, anti-romântica, anti qualquer coisa que signifique uma perpetuação de um costume quase medieval, beleza... eu sei que por um sonho, qualquer gasto é válido. Que assim como eu sonho em tomar um café num bistrô esnobe de qualquer buraco na Europa, sonhar com uma cerimônia de matrimônio é o que move as pessoas a trabalharem o mês inteiro e gastarem até o que não tem. Ok... Mas, uma coisa que me impressiona e que quase ninguém percebe é a forma com que essa Indústria dos casamentos consegue, desde muito cedo, convencer a maioria das mulheres de que isso é mais do que um sonho, é uma FASE da vida que não pode ser ignorada, é o atestado máximo da realização pessoal. 

Já parou pra observar como funciona a liturgia da cerimônia do casamento? Convidados em pé para saldar a felizarda que finalmente vai abandonar o estorvo que representa a palavra "solteira" (principalmente depois dos 30), fotos com as daminhas, madrinhas, amigas... Todas curvadas olhando fixamente para aliança num gesto de adoração... e o buquê?! AH! a maravilhosa hora do buquê: Mulheres que passaram horas no salão e gastaram uma nota preta com vestido, cabelo e maquiagem se estapeando, caíndo, embolando para quê? Isso mesmo. Acreditar cegamente na superstição de que aquele ramalhete vai tira-las do enorme "sofrimento" que é não ter um homem pra chamar de seu...

M-E P-O-U-P-E-M...

É bem verdade que meu ódio por cerimônias começou cedo: Festinhas de 15 anos. Não sei bem como funcionam hoje em dia, mas no meu tempo era um constrangimento atrás do outro. Fui chamada pra ser daminha, obrigada a usar um vestido apertado, salto alto a noite toda (gente, pra uma moleca que vivia jogando videogame com os meninos e usando o mesmo all star todo dia, isso é uma das mais cruéis formas de tortura), cabelo preso cheio de grampo, doendo pra caramba e ainda tive que dançar com um "cadete" abusado que se achava o gostosão. No final, ainda tinha-se o costume de puxar fitinhas de dentro de um arranjo, que tinham uma "surpresa" amarrada na outra ponta. A menina que tirasse a aliança na ponta da fita, era a "sortuda" que ia casar cedo. Quem pegasse o dedal na ponta da fita, estava condenada à danação eterna enquanto vivesse nessa atmosfera (Ou seja, ficar solteirona). Agora me digam: Isso é, ou não é, uma espécie de prelúdio para o futuro como noiva? Você prepara as adolescentes desde muito cedo para completar esse ciclo que supostamente fecha com a cerimônia de casamento. Alimentando desejos egocêntricos de dia de princesa e engordando a conta bancária de toda essa indústria de ilusão que só tende a crescer.

Não tô falando que nunca farei uma cerimônia de casamento um dia (Tenho muito medo do poder de lavagem cerebral do facebook das amigas e da mídia) também não tô condenando quem faz, até porque todo mundo ama uma boca livre. Tô só dizendo que é uma ilusão. Você não precisa fazer cerimônia pra provar pra sociedade que é feliz, realizada, linda e etc etc... Você nem precisa se casar se não quiser, pode ficar solteira se você achar legal, na boa, eu juro que criancinhas não vão te apedrejar na rua por causa disso. O que os outros julgam sobre nossas vidas não determinam a extensão da nossa felicidade. Até porque nos dias seguintes da cerimônia, o trânsito vai continuar o mesmo de sempre, o chefe vai continuar pegando no seu pé, você vai continuar envelhecendo e as contas vão continuar na escrivaninha, esperando para serem pagas.
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Ps.: Não lembro se peguei a aliança ou o dedal na festinha de 15 anos, diante de todos os constrangimentos, isso era o de menos. Mas sim, eu me casei. Duas vezes (e não tive nenhuma festa).

2014 até agora




2014 foi um ano de perdas.
Mas todos os anos não são assim?

Atores, cantores, escritores, sociólogos, políticos, cineastas, pintores...
Além desses, morreu gente que a gente nem sabe que nasceu.
Já parou pra pensar que a gente nasce e morre e tem gente que nem sabe?

Sua tão preciosa existência resumida a memórias de terceiros, meia dúzia de bens deteriorados, talvez algumas fotos, um perfil no Facebook e um nome numa agenda qualquer.

E até isso vai sumir.

Neste ano morreu alguma coisa dentro de mim.
2014 é um ano que ainda nem acabou, mas é como se nunca tivesse existido.

Não é verdade o clichê que a esperança é a última que morre. Aqui dentro ela já deu seu último suspiro... Já faz um tempinho até.

Só resta saber, nesses três últimos meses que restam, se ela ainda vai ressuscitar.

E se o ano acabar? Será que ela vai ressuscitar nos anos que me restam?

E quantos anos ainda me restam?

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 As imagens acima são da fotógrafa Francesca Woodman, alguém que eu só soube que existiu depois que já tinha ido embora, mas que deixou impactos de sua passagem em pessoas que jamais chegou a conhecer. 

13 - 31

Era uma vez uma menina de 13 anos que se apaixonou (pela primeira vez) pelo menino mais bonito da rua;
Era uma vez uma mocinha de 17 que conheceu o primeiro amor sério, o homem da sua vida;
Era uma vez uma moça de 22 que conheceu o segundo homem que achou que fosse o amor da sua vida;
Era uma vez uma jovem de 24, 25, 26 anos que conheceu outros homens que também achou que fossem "o homem" da sua vida;
Era uma vez uma sonhadora de 29 anos que se casou;
Era uma vez uma pessoa triste de 30 anos que se divorciou;
Era uma vez uma carente de 30 anos que se deixou iludir;
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Era uma vez uma mulher de 31 anos que olhou pro espelho e decidiu se apaixonar por aquele reflexo (pela primeira vez...)
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Viveram felizes para sempre.
Fim.

Selfie way of life

"eu"
"minha opinião"
"não bebo" 
"odeio quem fuma"
"eu nem me importo"
"eu" 
"sou chique"
"odeio engordar"
 "eu" 
"sou pra casar"
"medo de envelhecer"
"silicone"
"minha unha tá linda"
"eu"
"tô linda nessa roupa"
"me acham o máximo"
"eu"
"sou bem resolvida"
"dieta dukan"
"tudo com inveja"
"eu"
"recalque"
"eu"
"olha minhas fotos da viagem"
"eu"
"que filme difícil"
"eu"
"olha minha foto da festa"
"malhar"
"whey protein"
"eu""eu""eu"...

Preguiça de gente assim.


Aurélio

Definição oficial de algo que falta nesse mundo

"s.f. Aptidão para se identificar com o outro, sentindo o que ele sente, desejando o que ele deseja, aprendendo da maneira como ele aprende etc. 
Psicologia. Identificação de um sujeito com outro; quando alguém, através de suas próprias especulações ou sensações, se coloca no lugar de outra pessoa, tentando entendê-la. 
Competência emocional para depreender o significado de um objeto, geralmente, um quadro, uma pintura etc. 
Faculdade para idealizar ou traçar a personalidade de alguém, projetando-a num dado objeto, de maneira que tal objeto pareça estar indissociável desta. 
Sociologia. Compreensão do Eu social a partir de três recursos: enxergar-se de acordo com a opinião de outra pessoa; enxergar os outros de acordo com a opinião de outra pessoa; enxergar os outros de acordo com a opinião deles próprios. 
(Etm. do grego: empátheia; pelo inglês: empathy)"



Empatia.

Ou você tem, ou não ME tem.
Nem vem.

Tutorial de amizade.


Não quero andar na rua com um milhão de amigos; nem quero dançar rodeada de gente;
Não quero oferecer o brinde na mesa de família; nem quero compartilhar fotos com risadas, bebedeiras e ressacas.

Não quero participar do clubinho do cinema cult com chá; nem quero ouvir a música da moda com os amigos sensação, e, definitivamente, não quero sentir que faço parte de uma rodinha de vaidades.

De todas essas atividades, a minha solidão já se encarrega muito bem.

Quero andar, dançar, oferecer, compartilhar, participar, ouvir e sentir com alguém que verdadeiramente queira fazer parte disso, cúmplice da sinceridade.

Precisa apenas estar disposto a sentir, e sentir junto. Sentir que a sua dor é a minha dor, que quem te machuca não merece minha atenção, que estarei aqui pra te levantar ou pra dividir um sonho bom. Nem que seja apenas o sonho doce de açúcar da padaria da esquina.
Acabei de acordar. Mal realizei um sonho... A velha inquietação começa a me sacudir e outro sonho já começa a se formar...

Status atual: Pulando de sonho em sonho. Um dia caio na realidade.
Ou não.

Update.

Hum... É carnaval, ainda não empobreci de vez, tem comida na geladeira, tô prestes a começar no curso que sempre sonhei, moro só, tem vinho barato, cervejinha, amigos, mamãe e papai bajulando, casinho bonitinho, beijinho, internet, seriados, filminhos, musiquinhas via torrent e de quebra perdi uns três quilos.

Em suma: Minha vida tá boa, não faz sentido escrever aqui.

Volto quando a sensação de incompletude der as caras.
E sim, ela vai voltar.
Ela sempre volta.

Hipocrisia way of life

Me recuso a acreditar numa felicidade conformista, numa felicidade que diz: "Tô feliz aqui porque se eu me mexer tudo sai do lugar. Porque mudar dá muito trabalho".

Conformismo é alienação, alienação é burrice. Perdoem-me, mas a felicidade de vocês só funciona porque é perfeitamente adequada à gente ignorante...

Bem que eu poderia ser ignorante... Mas, por não conseguir, não sou feliz e não sei se poderei, um dia, ter essa felicidade (e esse amor) que vocês tanto almejam, tanto pregam, tanto esfregam na cara dos outros. Francamente, nem sei se quero. Apenas me deixem aqui no meu canto, lamuriada, resmungando e envelhecendo em meio a paixões passageiras e desilusões constantes. Ao menos sou sincera, pelo menos, não me deixo enganar.

E assim eu sigo. Prestes as ser extinta da cadeia evolutiva por não fingir me adaptar a uma realidade mais conveniente.

O filme Junkie do Lars Von Trier



Ok, fui assistir Ninfomaníaca com um pé atrás. Sabe como é... Muito hype, muita gente aguardando um filme pornô pra elite, muita gente indo só pelo oba oba, e muita gente já malhando o pau porque desde que Lars Von Trier falou aquelas baboseira e se tornou pernona non grata em Cannes, o suposto diretor antisemita foi ironicamente "pego pra Cristo"... Enfim, tudo isso me fez esperar um pouco.

Alem disso, filmes do Lars se tornam "sensações" pra mim. sejam elas ruins, catárticas e sem sentido (O Anticristo) como também podem ser inesquecíveis, terapêuticas e com uma certa dose de obscura identificação (Dançando no Escuro, Dogville, Melancolia...). Pensava que este seria um desses filmes que tentam chocar pelo sexo explícito (ou seja, sensação de tédio)... Mas, me enganei. Completamente.  

Ninfomaníaca não é um filme de sexo e esse é seu grande trunfo. Essa foi a grande sacada de Lars, ao meu ver, porque antes da estreia o filme foi vendido como longo, exagerado, explícito, absurdamente provocador... e não, não é nada disso.Claro, tem excessos de penis e vaginas, nus frontais e etc... Mas, se o expectador tiver a mente um pouco mais despida dos estereótipos sociais, vai enxergar na Joe (personagem da Charlotte Gainsbourg) uma junkie com um enorme vazio a ser preenchido, como qualquer outro viciado ou compulsivo. Seja ele em drogas, comida, bebida, consumo... Pessoas são compulsivas porque são solitárias, porque estão deprimidas, porque querem sentir alguma coisa. Pelo menos, nessa primeira parte, é disso que o filme trata. De um grande vazio existencial. Tema - aliás - sempre constante nos filmes do Lars Von Trier, sobretudo no último, o Melancolia. Muda-se o pano de fundo, mas as essências das histórias do Lars são sempre as mesmas: hipocrisia, solidão e a completa falta de sentido na vida.

É simplesmente encantador assistir um filme que lida com assuntos profundos de forma original, que aborda a questão da busca por sensações, da carência, da moralidade, dos relacionamentos, do amor (ou da ausência dele) e da morte de maneira aberta e com pitadas de referências nerds e artísticas. E ainda por cima, sabendo dosar cenas de humor e drama com genialidade. Não se sabe se é um filme erótico, ou de drama, ou mesmo de comédia. (Tragicômico, talvez?) difícil rotular. Uma surpresa muito agradável. um relato honesto. Sem censuras.  

E é essa forma sincera e humana com que a história é conduzida que é a grande provocação no final das contas, porque mexe com a hipocrisia de muita gente, mexe com sentimentos que, no fundo, as pessoas querem manter escondidos, tais quais suas suas partes mais íntimas, e é justamente isso que diretor faz questão de jogar na tela pra o mundo ver. Tem coisa melhor? Mal posso esperar pela parte dois!

Duelo.

Eis que o mundo divide-se em:

Gente incrivelmente burra e limitada que se acha inteligente X Gente incrivelmente inteligente e criativa que teima em limitar-se

(Tem a categoria de gente incrivelmente inteligente, mas que é esperta o suficiente pra não se limitar, e humilde o suficiente pra não esfregar isso na cara dos outros, mas isso é menos de 1% na pesquisa, então nem conta).

Escolha o seu lado e parta pro combate.

Vida inversa vida.














Numa dessas epifanias insones e malucas, você se dá conta que passou quase trinta anos fazendo tudo do jeito certo na vida.
E o resultado foi: Tudo errado.
Daí, em um único ano, quando você resolve fazer tudo errado, as coisas começam a dar certo?

Viver é isso? Então, tá.

Comfortably Numb

Hoje fui levar meu gato pra famosa "castração", coitado.

Era um gato maluco, briguento, birrento, ciumento, cheio de manha e de vontades, incontrolável, mas muito afetuoso. Eu gostava dele assim.

Parecia comigo mesma quando era mais nova.

Agora que ele voltou da cirurgia... Ficou meio apático, nauseado, preguiçoso, sem vontade pra nada... Um tédio constante. Deve ser por causa da anestesia... Ou não.

Continuo gostando dele. Parece mais comigo agora.




Downgrade vs Upgrade





Você sabe que sua vida tá boa, quando o upgrade se autoinstala sem você nem perceber.
Tipo, é preciso estar na versão ultrapassada pra perceber que precisa-se de um upgrade, mas quando ele vem, quando todas as configurações ficam redondinhas, quando tudo passa a fazer sentido, aí sim, você coloca as peças pra funcionar e vai em frente. Linda, leve, suave e sem travamentos no caminho.

Ruim mesmo, é quando sua vida é tipo processador velho. Se recusa a evoluir, até tenta, mas por incapacidade fica lá parando, e travando, lento, irritante... Você tenta instalar o software superior, mas não roda porque a incompatibilidade é gritante, daí você é obrigado a dar um downgrade pra funcionar de maneira aceitável. Você até opera o computador, mas vai ficar imaginando como seria usar aquele software lindão e moderno, dos sonhos.

Não, esse não é um texto sobre informática.