Menina.

Existiu uma menina, certa vez.
A menina era a filha única das cobranças, não é a toa que cresceu se achando culpada dos males do mundo.
Tinha que ser a mais estudiosa, a mais atenta, a mais arrumada, a mais educada, a mais magra, a mais organizada, a mais esperta... E só assim as pessoas gostariam dela, Só assim ela não sofreria mais. Ou sofreria menos. Teria amigos, no futuro: um bom marido e quem sabe filhos. 

Nunca mais se sentiria só. 

Ela seguiu a cartilha quando cresceu, e mesmo assim, levou alguns tombos e rasteiras. Sofreu e chorou, se magoou, se cortou e gritou. Até que cansou, e dormiu.
No meio do sonho descobriu que não era nada daquilo que tentara ser, mas isso não importava, porque também não era mais a culpada. De nada adiantava tentar mostrar todas as cores, todas as paisagens, todos os sons e todas as sensações, quanto os outros não sabem distinguir. Não precisava mais se importar, estava livre. preenchida em si mesma.

Nunca mais sentiu-se só.

Um comentário:

Anônimo disse...

É mesmo, o mais importante tipo de "amor" deveria sempre ser o amor próprio. Não creio que alguém chegue em lugar algum tentando agradar os outros.
Excelente texto.