Pequenas Freaks


"Doutor (dentro do quarto do hospital, falando com Cecilia, a garota que cortara os pulsos): - O que você está fazendo aqui, querida? Você nem tem idade suficiente pra saber o quanto a vida fica ruim.
Cecilia: - Obviamente, doutor, o senhor nunca foi uma garota de treze anos..."


O trecho acima foi retirado do livro "As Virgens Suicidas" de Jeffrey Eugenides, adaptado para o cinema por Sofia Coppola. Sempre tive um carinho especial pelas irmãs Lisbon do livro. Não por tendências suicidas, mas por rolar uma certa identificação, sobre ter consciência do quanto é difícil ser menina e crescer numa sociedade tão artificial e apegada à aparências, competições e manuais de boas condutas, e o quanto a maioria dos pais "modernos" acham que sempre sabem o que é o melhor pra suas crias. Quando se é mulher, parece que é quase obrigação de algumas mães tomarem conta de todos o aspectos de suas vidas, e o pior de tudo, projetarem os próprios desejos e frustrações nas crianças, como se fossem marionetes, como se as pequenas fossem uma "segunda chance" para a realização dos sonhos dos adultos.

Tive essa pequena epifania ontem, numa das já normais crises de insônia em que fico zapeando inerte em frente à TV. Como toda recém balzaca, tenho mania de assistir o Discovery Home e Health nem que seja pra falar mal. Embora, de vez em quando, até rolem uns programinhas úteis (ah, gosto sim, me julguem!) são as bizarrices que dão audiência. Seguindo essa linha, tem uma série que, toda vez que assisto, me deixa quase que horrorizada, que é o "Pequenas Misses".

Quem não viu, aconselho que dê uma olhadinha pra ter uma ideia do que é exploração infantil disfarçada de  autoestima. O programa foca nas famílias das menininhas participantes de concursos de beleza infantil, que são uma febre nos Estados Unidos. Geralmente, mostra o dia-a-dia de umas quatro participantes, antes, durante e depois do evento. Ao que parece, não existe limite de idade pra entrar nesse circo: No show aparecem bebezinhos de oito meses, de dois anos e vai até os treze ou quatorze. garotas do país todo são "treinadas" pelas mães, ou "profissionais" contratadas, para desfilarem em várias categorias, que incluem: Beleza, carisma (?), roupas de festa, fantasias e trajes de banho (pro deleite dos pedófilos).

Agora, imaginem meninas que mal sabem falar tendo que passar pelos seguintes tratamentos: Maquiagem, laquê, megahair ou apliques com grampos (Quem já botou esse troço, sabe que dói e incomoda bastante), cílios postiços, unhas de porcelana, vestidos com espartilho, depilação de sobrancelhas (!), bronzeamento artificial (!!), e até próteses dentárias para cobrir as janelinhas deixadas pelos dentes de leite (!!!). Como se não bastasse, as candidatas ainda tem que passar por treinamentos exaustivos para decorar passinhos de dança, e aprender a fazer caras e bocas.

É de partir o coração... Elas choram, gritam, se debatem, se estressam, e os pais, o que fazem? Ignoram solenemente. Com o argumento insano de que é pro bem delas, ou que elas vão porque querem, ou que estão juntando o dinheiro dos prêmios para pagar os estudos, ou coisa do tipo (o mesmo argumento usado por algumas estudantes universitárias que trabalham como acompanhantes, à propósito).

Engraçado é que tem sempre um padrão: As mães e avós geralmente são aquelas donas de casa com sobrepeso (nada contra gordinhas, mas nesse caso é um sinalizador da frustração) sem vida própria, sem interesses e sem o mínimo de cultura. Os pais são uns babacas que quando não parecem aqueles "coachs" do futebol americano, apenas obedecem às ordens das esposas, que ficam o tempo todo repetindo pras filhas: "Você tem que vencer, tem que ser a melhor, vamos ganhar esse troféu". Quando não vencem, parece o cenário de uma tragédia. No episódio de ontem, uma menina de 2 anos chamada Brystol bateu a cabeça antes de subir ao palco e ficou com um galo ENORME na testa. Chorou o concurso inteiro, e a única preocupação da mãe foi a má impressão que ela causou aos jurados. Ganhou um trofeuzinho de quinto lugar e quando foi mostrar pra mãe, a desgraçada ainda soltou: "Larga isso, Brystol, ninguém quer um quinto lugar, isso não serve de nada!". Uma outra de uns sete anos foi fantasiada de (pasmem) Júlia Roberts, no filme Uma Linda Mulher... Sou contra a violência, mas juro que se encontrasse com essas mães, ia me controlar pra não enfiar a mão na cara dessas pilantras.

Pra variar, esses concursos estão começando a se popularizar no Brasil também, e por mais que defendam que  a versão daqui é mais light e não permite a "adultização" precoce, fico imaginando o que esse clima constante de competição faz com a cabeça dessas crianças. Essa pressão pra ser "a melhor", "a mais bonita", enquanto inteligência, cultura e criatividade ficam em segundo plano. Bom pros psicólogos: Horas e fortunas com terapias estão por vir... Isso se elas não seguirem o mesmo destino das irmãs Lisbon, do início do texto, afinal, acredito que vai ser difícil pra essas moças terem que lidar com a dura realidade de expectativas inatingíveis e decepções constantes.

Um comentário:

Anônimo disse...
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